quinta-feira, fevereiro 1

De Olho

Lia, agora a pouco, um exemplar de Época. Exemplar gentilmente cedido por uma recifense arretada, capaz de vender até areia no deserto e de convencer todo mundo que a vida é melhor no nordeste do que em Goiânia. Não é, Gisele. Mas obrigado. Lia a matéria de capa da edição 448, que trazia estampada a cara do mais premiado cantor da música brasileira. Roberto Carlos, dono de 100 milhões de cópias vendidas. O rosto do rei servia de fundo a uma pergunta aparentemente fútil. Por que a vida alheia, especialmente a das celebridades, nos atraí. De onde vem o interesse pela fofoca? A pergunta partia do sucesso de uma biografia não autorizada, recentemente lançada sobre o músico. Por que as pessoas se interessam por vidas de pessoas que nem conhecem. A reportagem da revista, na verdade, não respondeu satisfatoriamente a pergunta que propôs. Mas passou por caminhos interessantes. Ouviu alguns antropólogos e psicólogos e saiu com algo mais ou menos assim: Há milhões de anos, os hominídeos se sentam ao redor de fogueiras para conversar sobre as pessoas que conheciam em comum. Com a cultura de massas, a fogueira se tornou a televisão. O culto a celebridade ganhou dimensão com a telinha, mas não surgiu com ela. Tanto é, que o gênero literário “biografia” surgiu entre os anos 50 e 120, com o historiador Plutarco. Plutarco acreditava que a vida dos grandes deveria ser esmiuçada e exposta para servir de inspiração aos contemporâneos. Foi assim que pesquisou as vidas de Alexandre, o Grande, Julio César e Cícero para compor seu clássico Vidas Paralelas. A matéria também passeava por lados interessantes, como o problema do biografo em conflito com o biografado, citando exemplos celebres como Richard Ellman contando a vida de James Joyce e Peter Gay usando a psicanálise para narrar a vida de Sigmund Freud. O último, que tentei ler recentemente, pareceu-me uma jogada primorosa. Psicanálise para o pai da psicanálise. Apropriado. Já quanto ao problema central da questão, não saiu coisa muito além do pensado. O negocio é evolutivo. Por mais que o fato social tente disfarçar, e que a coerção impeça, todo mundo, assumidamente, ou não, gosta de fofoca. E ainda, de satanizar fofoqueiros e paparazzi. Falando em Paparazzi, Mel Gibson não emplacou sua película homônima, americanamente romântica para filmar fotógrafos escrupulosos tirando a privacidade de celebridades doces e gentis. Nem se lembrou que As Caras da vida só contratam Paparazis, porque há curiosidade em cada banca de revista. Muito menos levou em conta, a cadeia evolutiva. Não se pode esquecer do velho Darwin.
visitas
Google